10
Jul
09

Leituras

Apesar do ainda muito trabalho, já vai dando para ler alguma coisa. Bela surpresa “A Pianista”, de Elfriede Jelinek (Edições ASA). Não conhecia esta Nobel da Literatura em 2004 (o que não espanta, dada a imensidão de coisas mesmo muito relevantes que desconheço), mas este romance parece ser a corporização exacta das razões por que o prémio lhe foi atribuído:

for her musical flow of voices and counter-voices in novels and plays that with extraordinary linguistic zeal reveal the absurdity of society’s clichés and their subjugating power

sobretudo a parte que se refere ao “extraordinary linguistic zeal”, algo que a excelente tradução de Aires Graça verte num Português magnífico. Um prazer imenso para quem gosta de, para lá de personagens e peripécias, apreciar a língua num esplendor pouco comum. Se calhar este artigo do tradutor explica porque é que ele fez um trabalho que merecia, só por si, um prémio literário.

Tanta sorte não teve Tom Wolfe. Não sei se é um grande escritor ou não, sei que vende muito e é uma personalidade importante no meio jornalístico e literário americano, o que já é obra. Li dele a “Fogueira das Vaidades” e gostei muito, desta vez estou em inícios do badalado “Eu sou a Charlotte Simmons” (não sou eu, é ele), e a tradução é daquelas que nos dá vontade de bater no nome impresso onde diz: “Tradução de Maria João Delgado” até ver a formulação mudar para “Assassinado por” ou “Tornado irremediavelmente patético por”, etc. Às recentes expressões de “assassínio político” e “assassínio de personalidade” devia juntar-se outra, “assassínio literário”. Nem sei se a MJD é má tradutora ou não, talvez esteja apenas a navegar em águas desconhecidas, e nesse caso o seu pecado será o da inconsciência e o de uma ética profissional descontraída.

Tudo o que se relaciona com basquetebol – que na parte lida até agora tem aparição substancial – é inenarravelmente vertido em formato destrambelhado para Português. A MJD inventou um novo desporto, vagamente parecido com o existente, mas em que tudo o que é típico dele é formulado numa terminologia inventada pela tradutora que, como é evidente, também dá para rir às gargalhadas, porque nem todos os dias estamos para nos indignar. Como é que alguém pode pôr-se a traduzir terminologia de uma área que desconhece e, em vez de tentar informar-se, acha melhor ideia improvisar com a sua ignorância é algo difícil de compreender com um autor destes e uma editora destas.

A Caminho, que a editar coisas destas bem podia chamar-se “Descaminho”, sempre batia mais a bota com a perdigota, tem a obrigação de salvaguardar-se destes episódios, assegurando que quem traduz sabe minimamente o que faz, ou arranjando supervisão que não deixe isto acontecer. No mínimo, os leitores deviam poder levar o calhamaço à Caminho, bater com ele na cabeça do editor e receber o dinheiro de volta.

Para acabar bem, como comecei, uma última referência para Daniel Pennac e o seu “Mágoas da Escola“ (Porto Editora), o relato autobiográfico de um cábula para quem a escola foi, durante quase todo o tempo, um martírio, e acabou por encontrar o seu caminho e tornar-se um professor consciencioso e empenhado. Leitura imprescindível para quem queira compreender a escola, o ser aluno, sobretudo o ser professor, numa altura em que sobre estas questões somos inundados de inanidades a um ritmo insuportável.

20
Jun
09

Estas pessoas que se prestam a tudo

Quando Alexandre Ventura aceitou presidir ao CCAP depois do que se tinha aí passado antes dele, percebeu-se logo que pouco haveria a esperar de mais um destes exemplares pouco raros que por aí existem que se prestam a tudo em troco do que lá eles saberão.

Esta verdadeira pérola que encontrei n’A Educação do meu Umbigo, do Paulo Guinote, mostra à saciedade o entendimento que a personagem tem do que é a liberdade de informação, o valor do acesso a essa informação, o papel dos cidadãos numa sociedade democrática e o das instituições, CCAP incluída, no espaço público de diálogo. Vejam só:


Ao Alexandre Ventura, cabe dizer o óbvio: muita informação, de fontes diferentes, com perspectivas e convicções diferentes, é uma coisa boa. É assim que deve ser.

Em vez de currículos embelezados e cheios de referências e cargos e responsabilidades e tal, as pessoas como o Alexandre Ventura deviam apresentar uma versão mais simples de si próprios, e que nos diz bem mais daquilo que são e daquilo que pensam: estas pérolas que vão produzindo nos sítios que, por razões que eles lá sabem, se prestam a fazer as coisas que eles lá sabem.

19
Jun
09

Mestrei

Defendi ontem a dissertação de mestrado. O título é “Da Web 2.0 ao e-Learning 2.0: Aprender na Rede”, coisa de carácter mais teórico e de eperimentação, sem parte prática, ao contrário do que é habitual neste tipo de trabalho. A arguência, da Profª Maria João Gomes, da Universidade do Minho, foi o melhor que se pode esperar: muito competente e muito simpática.

Para quem se interesse por estas temáticas, pode consultar a versão online, hipermédia, em http://orfeu.org/weblearning20/.

Correu muito bem e a companhia foi excelente, o que é sempre uma alegria redobrada.

12
Jun
09

Portugueses

Encontrei, via o blog De Rerum Natura (vale a pena seguir), um artigo do escritor brasileiro Cristóvão Tezza intitulado “Traduzindo português“. Começando pelo fim, para aguçar o apetite para uma leitura que me parece valer a pena, apresento a sua proposta, por ele qualificada de “herética”:

que nossa prosa contemporânea seja traduzida em edições no outro país. Não apenas no vocabulário acidental, mas na estrutura sintática mesmo, como se nós escrevêssemos em croata, e eles, em turco. Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português?

Basta olhar para os exemplos que ele dá de construções frásicas que lhe causam estranheza, retirados da tradução do último livro de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence, no original), para percebermos o quanto uma língua aparentemente comum nos separa de modo tão evidente: lêem-se e relêem-se as frases e não se consegue lá encontrar nada de estranho, tudo soa natural. E no entanto … A verdade é que tenho que concordar parcialmente com ele. Mesmo nas boas traduções em Português do Brasil a língua é sempre um factor de distanciamento, há uma espécie de consciência permanente da tradução, uma segunda camada que recobre o texto original e impede, de certo modo, que mergulhemos na sua substância. Muito bom para leituras de trabalho e análise, este distanciamento, mas claramente um factor negativo para a fruição dos textos.

Neste particular, contudo, sou um pouco mais específico do que Tezza: não me faz confusão nenhuma ler os brasileiros no original. As diferenças e especificidades fazem parte da própria expressão artística, acrescentam contexto e tornam mais poderosa a ilusão de verosimilhança e autenticidade. Assim, o meu desconforto vai mesmo é para as traduções, que só consigo ler sem engulhos em Português de Portugal. Já que estamos numa de heresias, jamais fui capaz de ler o Ulisses, de James Joyce, traduzido pelo Houaiss, por maior que fosse a genialidade da reescrita anunciada por muitos, e na qual acredito: era uma língua parecida com a minha, mas não era a minha língua (já descontando o facto de a obra ser, em sim mesma, razoavelmente estranha, também muito experimental em termos linguísticos).

Nestas coisas, o Inglês vem sempre à baila, sendo uma língua historicamente com tantas variantes, nas últimas décadas transformada em língua global, em que nunca houve grandes necessidades de acordos ortográficos nem grandes discussões em torno de uniformizações. Como é algo que me causa muita curiosidade, perguntei no Twitter como é que os falantes de língua inglesa se sentem com as traduções numa variante de Inglês que não é a sua, mas acho que precisava de ter uma rede maior para conseguir ter algumas respostas significativas.

30
Mai
09

Bye Bye

Fomos certamente mais de 50.000 os que, em fim de ano e de festa, fizemos questão de nos ir despedir dos 3 Dementors. Boa viagem de volta para o escuro de onde vieram. Não deixam saudades, apenas muito para reconstruir depois do muito mal que fizeram. Bye bye.

manif-30-05-09

20
Abr
09

Com um brilhozinho nos olhos

“Classical music with shining eyes”, por Benjamin Zander, é uma das muitas pérolas que se podem encontrar nas TedTalks e que nem vale a pena tentar adjectivar, porque é daquelas coisas que só vendo. Desde a ideia de “one buttock playing” até à definição que Zander faz de si e do papel do maestro, tão próxima daquilo que me parece a essência de ser professor, são pouco mais de vinte minutos verdadeiramente inspiradores. Obrigado ao João Ventura por ter partilhado isto num café de outras andanças.

09
Mar
09

O escudo anti

“Filho, fecha o casaco que está muito frio”.
“Ó pai, não te preocupes. A minha felicidade dá-me um escudo anti-frio”.

Pois é, já me tinha esquecido :-).

29
Jan
09

A Edie com o Paul!?

Só mesmo por acaso… Desde há umas semanas que estou a usar o Songbird, um programa open source alternativo ao iTunes que promete ser, diz o Aaron Boodman, o Firefox dos media players. Eu gosto muito e recomendo vivamente. Ora este programa tem vários addons (extensões) interessantes, um dos quais é o mashTape, que agrega informações várias (bio, geralmente da Wikipédia, fotos, vídeos, etc.) acerca de quem está a tocar no momento. Vem ao caso que um desses momentos dizia respeito a Edie Brickell, um cantora que, com os New Bohemians, fez coisas muito boas no final dos anos 80, inícios dos anos 90, mas a quem, entretanto, perdi o rasto.

Sendo uma das minhas cantoras favoritas, fui ler a biografia e, espanto meu (já me devia ter deixado de espantar há muito tempo com a minha incomensurável ignorância), descubro que a dita (e ditosa) artista casou em 1993 com Paul Simon, O Paul Simon, com quem tem agora 3 filhos. Ora, depois do casório, a Edie Brickell publicou um álbum a solo, em 1994, produzido pelo seu famoso marido (e com algumas participações muito especiais) – Picture Perfect Morning – de que a Rolling Stone diz muito mal (eu também não gosto muito, mas seria menos enfático), e depois só em 2003 voltou a dar sinais de vida, com Volcano, a que se seguiu Stranger Things, em 2006. Fiquei com pena dela, porque pensei “ora bolas, mais uma artista com enorme potencial que casa com um marido famoso do meio e fica uma década a cuidar da casa e da família”. Sendo que antes tinha pensado “Mas não diziam que o Garfunkel e o Paul Simon coiso???”, mas isso são as parvoíces a que a gente liga mesmo sem querer.

Bom, mas por descargo de consciência, fui ver o que o Paul Simon, de quem também gosto bastante, tinha andado a fazer, e a verdade é que na década de 90 há apenas um álbum – Songs from the Capeman, de 1997 – a que se seguiu, em 2000, You’re the One. Seis anos depois, no mesmo ano que Edie Brickell lançou Stranger Things, saiu Surprise. O que quer dizer que estes dois andaram a tratar da família, presumo (espero, desejo) muito enamorados e a gozar a vida um pouco longe das luzes da ribalta na maior parte do tempo. Fiquei mais descansado, embora me digam o bom senso e o pragmatismo que pode haver muitas outras razões para esta fraca produção de ambos.

Para quem não a conhece, e para que não pensem que exagero nestas minhas ruminações, deixo aqui dois registos: o famosíssimo “What I Am”, do primeiro álbum (1988) com os New Bohemians – Shooting Rubberbands at the Stars – e “Once in a Blue Moon”, do álbum Volcano (2003), também gravado com os New Bohemians. Resta dizer que, se a artista é muito boa, esta banda também é do melhor que há.

29
Jan
09

New York 2008

O Vimeo é um site como o Youtube, só que com muito menos confusão, o que torna bastante mais fácil encontrar as muitas pérolas com que nos podemos cruzar nestes sítios. No caso presente, um vídeo de Nova Iorque em câmera lenta, com 4m e 20s, feito por Vicente Sahuc. Às vezes, como é agora o caso, é dificil dizer porque é que certas coisas nos tocam mais do que outras, mas esta curtíssima metragem caíu-me no goto. Os detalhes do “making of” podem ser lidos aqui.

21
Jan
09

Agarrem-me senão… abstenho-me

Obviamente risível mas, também, instrutivo. Muito:

“Sou contratada, mas temos que ser fortes, temos que nos unir. Não podemos olhar só para o nosso umbigo, temos que pensar na força que temos juntos. É como diz o Obama – Yes we can”. Algumas palmas, porventura um pouco emocionadas.

A meio da votação da moção, a colega volta de atender um telefonema. “Desculpem mas tive que sair para atender um telefonema. Queria que me esclarecessem sobre a questão dos contratados”. Claro que agora não dá, estamos a meio de votar a moção. “Mas eu estou em luta e quero ser esclarecida”. Pois, mas isso era antes, agora já não pode ser. O que votas? “Abstenho-me”. E sottovoce, para o lado: “É que eu tenho família”.




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