Arquivo de Dezembro, 2006

11
Dez
06

Caladinhos e comportadinhos

É a vida na vila. Ontem fomos pela segunda vez ao renovado cine-teatro do Sobral de Monte Agraço. Da primeira tivemos direito a um concerto bastante interessante com música de Astor Piazzolla tocada pelo quinteto Lisboa Tango. Não conhecia mas gostei de ficar a conhecer o grupo. Desta vez tratava-se de um espectáculo de teatro intitulado “As guitarras de Alcácer-Quibir”, segundo o programa para maiores de 6 anos, embora fosse às 21,30. Vista a peça, só pode concluir-se que a escolha da hora tenha sido orientada por questões de gestão de qualquer tipo, pois tratava-se mesmo de uma peça para crianças, a não ser que o ursinho de peluche a fingir de bebé e as muitas piadas tipicamente infantis com o D. Sebastião e o Camões fossem estratégias dramáticas muito pós-modernas e eu tenha percebido tudo mal.

Bom, mas o que realmente interessa é que à nossa frente estava uma senhora muito permanente que bufava e se torcia na cadeira cada vez que o Afonso perguntava alguma coisa. Sendo simples, a história tinha meandros e trocadilhos que ele queria esclarecer, até porque esteve a seguir muito atentamente o que se passava no palco. A senhora é que não estava pelos ajustes, e lá ia comentando à esquerda e à direita que não havia direito, trazerem crianças para um espectáculo que não sabiam estar caladas, que falta de respeito pelos actores, etc. Diga-se de passagem que, embora simpáticos e esforçados, os actores cumpriam bem a sua função para uma peça infantil, mas estavam muito abaixo de amadores caso se olhasse para o espectáculo com olhos crescidos. Para dar só um exemplo, era completamente impossível na maior parte das vezes compreender o que dizia um dos actores, mesmo com a sala em total silêncio.

Resignei-me a não dizer nada, porque discutir com alguém tão falho de bom senso é sempre uma grande perda de tempo, mas à saída lá ia ela à minha frente a tocar a mesma tecla e a remoer nos mesmos reparos, e não resisti. Perguntei—lhe que ideia era a dela de ter crianças a ver uma peça em absoluto silêncio, sem perceberem muitas das coisas que se passam no palco. Acharia ela que isso era uma boa forma de as levar a gostar de teatro e a apreciar a cultura? Ir a sítios onde não podem fazer perguntas sobre o que não compreendem? A minha ideia inicial era obviamente acertada. Para a senhora essas questões nem se punham, porque o seu dogma era simples: teatro é em silêncio ou então as crianças devem ficar em casa. Não prolonguei a discussão, tive mais juízo à segunda volta, mas vinha para casa a pensar naquilo e a conversar com a Lina sobre o assunto quando de repente se me fez luz: a senhora não percebeu que o espectáculo era para maiores de 6 anos, ou seja, que se tratava de uma peça infantil, daí a sua indignação. Realmente só estava para aí meia dúzia de miúdos, e se calhar é por isso que alguém pode chegar tão longe na vida num meio destes e ir ao teatro como quem vai à missa, um ritual, sem perceber muito bem o que aí se está a passar.




Twitter

Dezembro 2006
S T Q Q S S D
    Jun »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031