29
Maio
08

Como num sonho

Parece haver uma natural propensão de quem tem filhos para os educar nos valores e práticas que achamos ser os melhores, e uma tendência marcada dos filhos para escolherem e se dedicarem a coisas que são exactamente o contrário disso. No género de nós metermos umas buchas pedagógicas e com muito valor educativo na conversa – “sim filho, jogar à bola é muito bom, mas também há outras coisas boas na vida, como nadar no mar, ler, dar um abraço, etc.” (já viram  o “ler” ali no meio, entalado entre duas coisas tão boas?) – ou pormos Mozart a tocar, e dizermos com a maior das naturalidades – “Já viste como é bonita esta música?”, com a subtileza que caracteriza estas investidas educativas – e no fim de anos de esforço a fazer estas coisas deparamo-nos com um fanático de death metal semi-analfabeto.

Foi por estas e por outras que tive esta ideia extrordinária (que certamente milhares de outras pessoas já tiveram, mas a maior parte das minhas ideias são assim): e se eu incentivasse o meu oitanário a fazer o contrário do que quero que faça; e transformasse em fruto proibido aquilo a que gostaria que ele dedicasse uma boa parte do seu tempo?

Quando ele se portasse mal, dizia-lhe, por exemplo: “Ai sim, ai andas a jogar à bola dentro de casa e a dar cabo das paredes todas, então vai já para o computador e só sais de lá daqui a uma hora”; ou “Bem, visto que não paras com esses guinchos, e que já te pedi MILHÕES de vezes para não guinchares, vai imediatamente para o sofá da sala ver televisão durante duas horas”. Os exemplos não são dramáticos porque o rapaz nunca faz nada de muito grave, só tem mesmo é excessos de alegria e energia …

Bom, continuando … Por outro lado, quando ele olhasse para as estantes atulhadas de livros, dizia-lhe: “Nem penses. Isto é só para pessoas que já estudaram muito e sabem muito e são muito espertas, não é para putos xarilas como tu”. E o mesmo para outras coisas, como aprender a tocar um instrumento, ou ir ao teatro, ver uma exposição, etc.

Se tudo corresse bem, ele viria a dedicar muito pouco tempo à televisão e ao computador e bastante mais tempo à leitura, à música, e a outras actividades geralmente consideradas benéficas para o intelecto e a sensibilidade. Mas confesso que não tive a temeridade de me meter por esses caminhos. E se … afinal, também vemos miúdos que parecem fotocópias dos pais, e é por fazerem exactamente o que lhes mandam ou o que os vêem fazer. Decidi, portanto, ser como toda a gente: tentar transmitir-lhe algumas coisas que acho que são boas e esperar que não corra muito mal.

A parte do sonho: decobri que o meu filho tem um diário onde escreve regularmente. A última entrada dizia: “Ando há uns tempos a tentar, muito discretamente, insinuar na mente do meu pai a ideia de que o melhor para me educar é mandar-me fazer o que não quer que eu faça, e não me deixar fazer o que gostaria que eu fizesse. Tipo, eu portava-me mal e ele mandava-me jogar no computador ou ver televisão como castigo; ou dizer-me que ler nem pensar que não era para um puto como eu. Isto era fixe, porque assim eu podia passar montes de tempo a jogar no computador e a ver televisão e só tinha que fingir que queria ler, não tinha mesmo que. Tudo parecia bem encaminhado até há uns dias, mas de repente a coisa esfriou. O que é que terá corrido mal?”

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1 Response to “Como num sonho”


  1. 1 Rui
    27/06/2008 às 11:54

    Tantas, mas tantas vezes que me ocorreu esta estratégia. Vê-la partilhada por alguém como tu faz-me pensar em criar uma maçonaria toda nova só dedicada ao terrorismo pedagógico, com rituais de iniciação e tudo, envolvendo naturalmente a capacidade de objectivamente exigir que uma criança fizesse algo de muito reprovável, sob o olhar próximo, contido e inerte do noviço. Mas depois, fico com a sensação que o teu sonho denunciou. A propósito, quero dizer-te uma coisa sobre os sonhos. Importante. Vi no outro dia num excelente documentário da BBC. Tu sabias que os sonhos blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá ?


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