Um post do Pedro Neto que vale muito a pena ler. Também é sobre a essência de ser professor, mas é sobretudo sobre a essência de ser humano.
Arquivo de Autor de josemota
Bem dito
Este é o meu futuro
Dos 18 aos 36 anos vou ser futebolista;
Dos 36 aos 55 anos vou ser astronauta;
Dos 55 aos 65 anos vou ser cientista;
Dos 65 até à reforma vou ser professor.
Este é o meu futuro.
E se as coisas fossem mesmo assim tão claras como na cabeça de um rapazito de 9 anos?
É frequente falar-se de como alguns princípios teóricos correctos e muito recomendáveis em educação podem ser mal aplicados, resultando daí que, em vez de promoverem os benefícios que se espera na aprendizagem, acabem por produzir exactamente o efeito contrário, ou seja, dificultam em vez de facilitarem.
Ontem tive um exemplo prático (e cómico) deste problema. Não costumo ajudar o meu filho, agora no 4º ano, a fazer os trabalhos de casa, porque ele não tem precisado, mas desta vez ouvi um “Ó Pai, anda cá que eu preciso da tua ajuda” que revelava perplexidade. Lá fui. O trabalho era responder a umas perguntas sobre números ordinais, nada de muito complexo. Na página da esquerda os ditos, na da direita a situação-problema a partir da qual deviam ser feitos os exercícios. Em teoria, tudo estava feito segundo princípios didácticos correctos, e com os quais concordo – contextualizar a tarefa num universo próximo do aluno, procurar situá-la num contexto verosímil, dar um sentido prático ao problema apresentado, etc., de modo a evitar a aprendizagem mecânica e a promover uma aprendizagem significativa. Na prática, contudo, as coisas resultavam diferentes.
A situação problema era a seguinte: uma escola vai levar os seus alunos a uma visita de estudo. 24 estão já dentro do veículo que vai transportá-los, e cá fora há uma fila à espera de entrar. Olhando para a imagem, vê-se um avião na pista e uma fila de alunos e alguns professores junto ao mesmo. Lá se foi a verosimilhança, de mais do que uma maneira. Depois, as perguntas: “em que lugar está a menina de verde?” “Em que lugar está o 1º adulto”, etc. Até aqui tudo bem.
Depois vinham as difíceis: “em que lugar está a última menina de tranças?” Mmm…, só consigo ver uma, filho. Ó pai, é esta. Não, filho, essa tem um rabo de cavalo, não é uma trança. Então é esta aqui. Não filho, essa tem puxinhos. Puxinhos, pai, o que é isso? Lá expliquei. Mas ó pai, se dizem “a última menina que tem tranças” é porque há mais do que uma. Tens razão, é bem pensado. Mas só uma é que tem tranças. O que é que fazemos? Olha, vou pôr a dos puchinhos, que é o mais parecido, e logo se vê. Ok.
Próxima pergunta: “em que lugar está o menino na cadeira de rodas?” Ó pai, isto não está bem. Porquê, filho? Qual é o problema? Então, se o menino está numa cadeira de rodas deviam tê-lo deixado entrar primeiro, não era porem-no ali na fila à espera. Não achas? Acho filho, também me parece que teria sido o mais correcto.
E ainda: “o aluno em trigésimo quinto lugar é um menino ou uma menina?” Ó pai, o que é que achas? Eu sei que é este, mas não consigo perceber se é menino ou menina. Mmm… deixa ver. Tem calças, será um menino? Isso não quer dizer nada pai, há aqui uns que se vê bem que são meninas e têm calças. Pois… o que te parece? Bem, pai, tem o cabelo um bocado comprido e a cara redonda, pode ser uma menina, mas por outro lado tem assim um corpo que parece mais um rapaz. O que é que eu ponho? Olha, põe rapaz e depois perguntas à professora o que é que ela acha.
Bem, em vez dos números ordinais propriamente ditos, coisa que não suscitava quaisquer dificuldades, passámos o tempo a falar de maneiras de apanhar o cabelo, da consideração especial que se deve ter para com as pessoas com deficiência ou em situação de fragilidade física, e dos esterótipos associados a rapazes e raparigas. Não devia ser preciso tanta substância sociocultural para um simples exercício com números ordinais. Ainda por cima, quando por via disso várias perguntas não tinham um resposta claramente correcta.

As boas famílias

Este foi o estado lastimoso em que ficou o parque onde o Afonso brinca de vez em quando. Passámos lá há uns dias e deparámo-nos com isto. Pensei, na altura, que uns tipos com os copos se tinham divertido desta maneira estúpida. Mas afinal, não deixando de ser uma estupidez, foi até pior do que eu pensava. Soube hoje que isto foi obra de um grupo de putos entre os 12 e os 14 anos, moradores aqui na zona da Avenida de Roma, que os pais deixam andar a passear à noite na rua. Parece que ja são conhecidos por fazerem outras coisas engraçadas como andarem por cima dos carros a amolgarem-nos todos. Tudo filhos de boas famílias, segundo os cânones habituais. WTF?!

Leituras
Apesar do ainda muito trabalho, já vai dando para ler alguma coisa. Bela surpresa “A Pianista”, de Elfriede Jelinek (Edições ASA). Não conhecia esta Nobel da Literatura em 2004 (o que não espanta, dada a imensidão de coisas mesmo muito relevantes que desconheço), mas este romance parece ser a corporização exacta das razões por que o prémio lhe foi atribuído:
for her musical flow of voices and counter-voices in novels and plays that with extraordinary linguistic zeal reveal the absurdity of society’s clichés and their subjugating power
sobretudo a parte que se refere ao “extraordinary linguistic zeal”, algo que a excelente tradução de Aires Graça verte num Português magnífico. Um prazer imenso para quem gosta de, para lá de personagens e peripécias, apreciar a língua num esplendor pouco comum. Se calhar este artigo do tradutor explica porque é que ele fez um trabalho que merecia, só por si, um prémio literário.
Tanta sorte não teve Tom Wolfe. Não sei se é um grande escritor ou não, sei que vende muito e é uma personalidade importante no meio jornalístico e literário americano, o que já é obra. Li dele a “Fogueira das Vaidades” e gostei muito, desta vez estou em inícios do badalado “Eu sou a Charlotte Simmons” (não sou eu, é ele), e a tradução é daquelas que nos dá vontade de bater no nome impresso onde diz: “Tradução de Maria João Delgado” até ver a formulação mudar para “Assassinado por” ou “Tornado irremediavelmente patético por”, etc. Às recentes expressões de “assassínio político” e “assassínio de personalidade” devia juntar-se outra, “assassínio literário”. Nem sei se a MJD é má tradutora ou não, talvez esteja apenas a navegar em águas desconhecidas, e nesse caso o seu pecado será o da inconsciência e o de uma ética profissional descontraída.
Tudo o que se relaciona com basquetebol – que na parte lida até agora tem aparição substancial – é inenarravelmente vertido em formato destrambelhado para Português. A MJD inventou um novo desporto, vagamente parecido com o existente, mas em que tudo o que é típico dele é formulado numa terminologia inventada pela tradutora que, como é evidente, também dá para rir às gargalhadas, porque nem todos os dias estamos para nos indignar. Como é que alguém pode pôr-se a traduzir terminologia de uma área que desconhece e, em vez de tentar informar-se, acha melhor ideia improvisar com a sua ignorância é algo difícil de compreender com um autor destes e uma editora destas.
A Caminho, que a editar coisas destas bem podia chamar-se “Descaminho”, sempre batia mais a bota com a perdigota, tem a obrigação de salvaguardar-se destes episódios, assegurando que quem traduz sabe minimamente o que faz, ou arranjando supervisão que não deixe isto acontecer. No mínimo, os leitores deviam poder levar o calhamaço à Caminho, bater com ele na cabeça do editor e receber o dinheiro de volta.
Para acabar bem, como comecei, uma última referência para Daniel Pennac e o seu “Mágoas da Escola“ (Porto Editora), o relato autobiográfico de um cábula para quem a escola foi, durante quase todo o tempo, um martírio, e acabou por encontrar o seu caminho e tornar-se um professor consciencioso e empenhado. Leitura imprescindível para quem queira compreender a escola, o ser aluno, sobretudo o ser professor, numa altura em que sobre estas questões somos inundados de inanidades a um ritmo insuportável.
Quando Alexandre Ventura aceitou presidir ao CCAP depois do que se tinha aí passado antes dele, percebeu-se logo que pouco haveria a esperar de mais um destes exemplares pouco raros que por aí existem que se prestam a tudo em troco do que lá eles saberão.
Esta verdadeira pérola que encontrei n’A Educação do meu Umbigo, do Paulo Guinote, mostra à saciedade o entendimento que a personagem tem do que é a liberdade de informação, o valor do acesso a essa informação, o papel dos cidadãos numa sociedade democrática e o das instituições, CCAP incluída, no espaço público de diálogo. Vejam só:

Ao Alexandre Ventura, cabe dizer o óbvio: muita informação, de fontes diferentes, com perspectivas e convicções diferentes, é uma coisa boa. É assim que deve ser.
Em vez de currículos embelezados e cheios de referências e cargos e responsabilidades e tal, as pessoas como o Alexandre Ventura deviam apresentar uma versão mais simples de si próprios, e que nos diz bem mais daquilo que são e daquilo que pensam: estas pérolas que vão produzindo nos sítios que, por razões que eles lá sabem, se prestam a fazer as coisas que eles lá sabem.
Mestrei
Defendi ontem a dissertação de mestrado. O título é “Da Web 2.0 ao e-Learning 2.0: Aprender na Rede”, coisa de carácter mais teórico e de eperimentação, sem parte prática, ao contrário do que é habitual neste tipo de trabalho. A arguência, da Profª Maria João Gomes, da Universidade do Minho, foi o melhor que se pode esperar: muito competente e muito simpática.
Para quem se interesse por estas temáticas, pode consultar a versão online, hipermédia, em http://orfeu.org/weblearning20/.
Correu muito bem e a companhia foi excelente, o que é sempre uma alegria redobrada.
Portugueses
Encontrei, via o blog De Rerum Natura (vale a pena seguir), um artigo do escritor brasileiro Cristóvão Tezza intitulado “Traduzindo português“. Começando pelo fim, para aguçar o apetite para uma leitura que me parece valer a pena, apresento a sua proposta, por ele qualificada de “herética”:
que nossa prosa contemporânea seja traduzida em edições no outro país. Não apenas no vocabulário acidental, mas na estrutura sintática mesmo, como se nós escrevêssemos em croata, e eles, em turco. Se meu livro, escrito em brasileiro, pode ser traduzido para o catalão, porque não para o português?
Basta olhar para os exemplos que ele dá de construções frásicas que lhe causam estranheza, retirados da tradução do último livro de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence, no original), para percebermos o quanto uma língua aparentemente comum nos separa de modo tão evidente: lêem-se e relêem-se as frases e não se consegue lá encontrar nada de estranho, tudo soa natural. E no entanto … A verdade é que tenho que concordar parcialmente com ele. Mesmo nas boas traduções em Português do Brasil a língua é sempre um factor de distanciamento, há uma espécie de consciência permanente da tradução, uma segunda camada que recobre o texto original e impede, de certo modo, que mergulhemos na sua substância. Muito bom para leituras de trabalho e análise, este distanciamento, mas claramente um factor negativo para a fruição dos textos.
Neste particular, contudo, sou um pouco mais específico do que Tezza: não me faz confusão nenhuma ler os brasileiros no original. As diferenças e especificidades fazem parte da própria expressão artística, acrescentam contexto e tornam mais poderosa a ilusão de verosimilhança e autenticidade. Assim, o meu desconforto vai mesmo é para as traduções, que só consigo ler sem engulhos em Português de Portugal. Já que estamos numa de heresias, jamais fui capaz de ler o Ulisses, de James Joyce, traduzido pelo Houaiss, por maior que fosse a genialidade da reescrita anunciada por muitos, e na qual acredito: era uma língua parecida com a minha, mas não era a minha língua (já descontando o facto de a obra ser, em sim mesma, razoavelmente estranha, também muito experimental em termos linguísticos).
Nestas coisas, o Inglês vem sempre à baila, sendo uma língua historicamente com tantas variantes, nas últimas décadas transformada em língua global, em que nunca houve grandes necessidades de acordos ortográficos nem grandes discussões em torno de uniformizações. Como é algo que me causa muita curiosidade, perguntei no Twitter como é que os falantes de língua inglesa se sentem com as traduções numa variante de Inglês que não é a sua, mas acho que precisava de ter uma rede maior para conseguir ter algumas respostas significativas.
Bye Bye
Fomos certamente mais de 50.000 os que, em fim de ano e de festa, fizemos questão de nos ir despedir dos 3 Dementors. Boa viagem de volta para o escuro de onde vieram. Não deixam saudades, apenas muito para reconstruir depois do muito mal que fizeram. Bye bye.

